15-10-2014

Num ano, o Musikki – o agregador de conteúdos e serviços musicais que em 2013 venceu o nosso Prémio – tornou-se ainda mais global. Em 2014 abriu escritório no Porto e uma subsidiária no Reino Unido. Lançou uma aplicação mobile que traz à palma da nossa mão tudo o que existe sobre música e seus atores. Lançou uma API para servir as mais diversas plataformas, da música ou generalistas. E prepara-se para realizar muito mais. A startup nascida em Aveiro, que acaba de garantir um financiamento de 330 mil euros da Smart Equity, está a apostar igualmente numa estratégia B2B, realizando um percurso sustentado que vem merecendo o elogio dos seus pares e a atenção dos investidores. Por tantos e bons motivos, achámos que era tempo de pormos a conversa em dia com João Afonso, cofundador e CEO do Musikki. Fica aqui o registo.
 
A Musikki app, lançada há poucos meses, tem o mundo da música dentro, não lhe escapa nada… Como a defines?
É, de facto, uma aplicação que reúne toda a informação musical, atualizada em tempo real. Tem sido comparada a um “IMDb para a música” e, embora nós não gostemos por aí além de usar comparações para nos definir, a verdade é que a comparação é feliz. A quantidade de informação, a forma a organiza e o tipo de necessidade que satisfaz colocam o Musikki nesse espaço – o de ser um serviço que agrega o conhecimento musical ao mesmo tempo que facilita a descoberta musical. A app tem pormenores deliciosos como descobrir quem fez covers de determinada canção, com quem determinado artista colaborou, quantos edições foram feitas de um disco, etc.
Mas o Musikki não é só conhecimento, é também consumo. Podemos ouvir música através de serviços de streaming como o Spotify; ler as letras das canções, críticas de discos, notícias, etc.; e em breve poderemos comprar música e bilhetes. O utilizador pode, também, seguir os seus artistas, o que significa que sempre que há conteúdo oficial libertado (vídeo, lançamento de álbum, concerto), ou novos dados pertinentes, de imediato recebe uma notificação.
Uma das funcionalidades interessantes, acabada de lançar, é a pesquisa por código de barras. Certamente será mais usada pelo “nicho” dos que ainda compram música em formatos físicos, mas não deixa de ser uma funcionalidade muito útil e que está a despertar muito interesse por parte das lojas de música. Isto porque permite a qualquer pessoa entrar numa loja e com o seu telefone ouvir os CDs da loja, ler dos álbuns, quem tocou no álbum, etc., e decidir que discos quer comprar.
 
Além da app, o Musikki tem outro produto/serviço que pode ter grande impacto na indústria da música…
Sim, começámos a fase de testes da nossa Music API [Application Programming Interface]. O facto é que ficámos tão bons no tratamento de dados do lado do servidor que temos hoje a oportunidade de fornecer informação a outras plataformas de música, ajudando, desta forma, a melhorar a experiência de utilização que oferecem.
 
Estamos a falar de que plataformas? Spotify e similares? Amazon, por exemplo, ou operadoras generalistas multimédia?
Estamos a falar de tudo isso. Ainda não podemos revelar nomes, mas estamos em conversações principalmente com empresas da área de streaming e ecommerce. No entanto, e isto é algo que nos tem surpreendido, temos igualmente abordagens de empresas de outros sectores; empresas cujo “core” do negócio não é a música, mas que veem no serviço que vamos oferecer uma forma de dar algo extra aos seus utilizadores e clientes.
 
Abriram escritório em Londres em maio passado. Que balanço pode ser feito?
O balanço é excelente! A velocidade com que as coisas acontecem em Londres é impressionante, distinta da realidade portuguesa. Como a indústria musical está lá concentrada, torna-se tudo muito mais fácil e rápido.
Lá não há a questão portuguesa da “nossa quinta”, uma certa falta de vontade em partilhar, por exemplo, um contacto… Em Londres é muito mais fácil criar rede, as pessoas apresentam as outras sem problemas, nem que seja a alguém da concorrência. Estamos sempre a estabelecer novos contactos, a promover o Musikki. Temo-nos vindo a tornar conhecidos no meio, o que tem facilitado o acesso às pessoas certas que nos estão a ajudar a fechar as melhores parcerias. Para além de tudo isto, a recetividade ao nosso projeto tem sido fantástica.
 
E em setembro abriram escritório no Porto. Porquê esta cidade?
Nós continuamos a ter o nosso espaço em Aveiro, até porque queremos manter o contacto com a Universidade de Aveiro que tem sido a nossa fonte de recrutamento por excelência, mas o Porto oferece uma maior base de recrutamento, o que torna mais fácil encontrar os profissionais com os perfis que desejamos. Além disso, o Porto é uma cidade mais cosmopolita, onde se aposta na cultura e nas industrias criativas. Para nós, este é um ponto extremamente importante. O Musikki é um projeto global, mas antes de o escalar precisamos de afinar o nosso modelo de negócio e a forma como nos articulamos com os diferentes stakeholders da indústria. Queremos criar sinergias com artistas, editoras, promotores, salas de espetáculo, lojas de música, etc., para depois replicarmos o que fizermos no Porto em Londres, Nova Iorque, Tóquio, São Paulo… Queremos, por exemplo, criar iniciativas com a Casa da Música e o Primavera Sound, e depois replicar com o Royal Albert Hall e o Glastonburry.
 
O Musikki também está a intervir na agenda da indústria. Qual o propósito dos Music Meetup [encontros de periodicidade mensal, realizados nas instalações do Porto]?
Queremos ajudar a criar um ecossistema de discussão aberta sobre o presente e o futuro da indústria musical. Existe um grande reboliço em torno do futuro da música, de como a indústria vai evoluir. Como agregador de música numa vertente tecnológica, o Musikki pode também contribuir para juntar todos os agentes do sector e fomentar o debate sobre os rumos a tomar.
Estas iniciativas são comuns em cidades como Londres. Aliás, faz parte do meu trabalho participar em eventos similares: o mesmo tempo que aumento a nossa rede de contactos, presto o nosso contributo para a discussão e, como óbvio, aprendo com os demais intervenientes. É essa dinâmica que desejamos replicar no Porto, com a realização, todas as últimas quintas-feiras do mês, destes encontros abertos. O primeiro será já no dia 30 de outubro.
 
Sem o Prémio Nacional Indústrias Criativas, o que teria sido diferente?
O percurso que predefinimos não foi alterado, mas tudo seria mais moroso … O Prémio permitiu acelerar o timing do projeto. Sem ele, provavelmente ainda não estaríamos em Londres, teríamos uma equipa mais reduzida, ainda não teríamos lançado a app ou avançado com a API. Em todo este processo foi igualmente muito importante a validação do Musikki por entidades como a Unicer e Serralves. O “selo de qualidade” que conferem ajudou-nos a abrir muitas portas.
 
Daqui a um ano, o que poderás contar de novo?
Poderei contar que temos muitos mais utilizadores, claro. Teremos nessa altura um novo produto, que ainda não podemos revelar, que acreditamos se tornará importante para a indústria musical. Teremos uma nova versão web do Musikki. Estará também já no mercado a versão Android da nossa app. E teremos novos clientes da nossa API a usar os nossos serviços para melhorar a sua própria oferta. Haverá, seguramente, muito que contar…


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